O alto desempenho esportivo é um talento inato ou pode ser desenvolvido?
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O alto desempenho esportivo é um talento inato ou pode ser desenvolvido?

Escrito por Unisport Brasil

Como melhorar o desempenho esportivo? Talento é inato ou fruto de treinamentos exaustivos? No âmbito da prática esportiva, talento pode ser considerado a apresentação de determinadas características motoras, somáticas, fisiológicas e até psicológicas para desempenhar uma atividade em nível muito superior aos demais, demonstrando habilidades e capacidades excepcionais.

Mas seria possível induzir “artificialmente” um atleta a essa excelência esportiva, transformando pessoas comuns em supermáquinas de velocidade, controle motor e visão de jogo fora do normal? Qual o percentual de responsabilidade dos estímulos ambientais na geração dos “monstros do esporte”? São as respostas para essas perguntas que você vai conferir a partir de agora!

O que diz a Ciência sobre as raízes do desempenho esportivo?

Ao longo dos séculos, a concepção de talento foi amplamente utilizada como sinônimo de aptidão natural, habilidade rara e valiosa presente no código genético dos indivíduos. O desenvolvimento das pesquisas neurocientíficas das últimas décadas, entretanto, levaram a comunidade acadêmica a concluir que adaptações psicomotoras, além das capacidades físicas, podem ser elastecidas após um intenso período de treinamentos.

Na verdade, não se trata de ignorar a influência da transmissão genética como facilitador no processo de desenvolvimento artístico ou esportivo. No entanto é consenso que até algumas caraterísticas fenotípicas, antes atribuídas inteiramente a fatores hereditários, podem ser alteradas por indução. Seria o caso do processo de crescimento ósseo, potencialmente modulado com exercícios físicos sistemáticos.

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O ponto de partida de qualquer trabalho em preparação física que almeje a excelência é compreender que o atingimento do máximo das potencialidades do atleta no desempenho esportivo depende da interação entre processos genéticos e ambientais, sendo que o conhecimento preciso do primeiro ajuda a ampliar o retorno do segundo.

Como misturar genética e treinamento?

Em uma era marcada pela junção entre tecnologias físicas, biológicas e digitais, não são poucas as comissões técnicas de atletas de alta performance que já se utilizam de mapeamentos genéticos para conduzir treinamentos específicos. É a produção de comportamentos humanos ideais pela interação plena entre hereditariedade e estímulos ambientais.

Com base em biotecnologia, realidade virtual/aumentada e análise de dados (Big Data), médicos, fisiologistas, fisioterapeutas e preparadores físicos se valem de diagnósticos genéticos para aumentar exponencialmente o desempenho esportivo por meio das decisões abaixo relacionadas.

Escolha da modalidade

Existem muitos estudos que comprovam que existe relação entre o gene ACTN3 e o alto desempenho em atividades de resistência e longa duração. Isso, porque esse gene codifica uma proteína muito presente nas fibras musculares esqueléticas, a α-actinina, com importante implicação na força e no arranque muscular.

O conhecimento da ocorrência de um eventual polimorfismo (variações na sequência de DNA por hereditariedade), que favoreça a transmissão do gene ACTN3, pode ajudar a identificar, por exemplo, quais crianças têm maior potencial de desenvolvimento na prática de maratonas.

Em última análise, o conhecimento amplo das sequências genéticas pode ser o fiel da balança na hora de dividir crianças e adolescentes no treinamento das mais diversas práticas esportivas, melhorando os resultados dos exercícios programados.

Estamos falando, portanto, na conciliação entre treinamento e condições inatas para criar talentos, e não no maniqueísmo simplista entre patrimônio genético ou atividade física.

Nutrição do atleta

Já ouviu falar em nutrigenômica? A nutrigenômica é a ciência da nutrição na era da Inteligência Artificial, do pós-genoma e da análise de dados por softwares de alta capacidade.

Essas e outras tecnologias ajudaram a criar uma ciência formada por equipes multidisciplinares, que, com base em mapeamentos genéticos em softwares extremamente poderosos, conseguem identificar — com precisão molecular — quais os alimentos que amplificam o desempenho esportivo de cada atleta.

É sabido, por exemplo, que o consumo de ácidos graxos ômega-3 (substância abundante em peixes) altera mais de 1.000 genes, muitos dos quais ligados à inibição da aterosclerose. Também é consenso na literatura médica que a conversão do betacaroteno (contida na cenoura e na beterraba) em vitamina A é precário em pacientes portadores de uma variação no gene BCMO1.

Nesse caso, a identificação dessa disfunção abriria espaço para substituir a ingestão dessa vitamina indireta pela priorização da vitamina A pré-formada. Esse conhecimento em nutrição desportiva voltada à genética é crucial para o alcance da excelência no esporte.

Prevenção de lesões musculares

Até alguns anos, as adaptações fisiológicas decorrentes dos treinamentos de sobrecarga, por exemplo (que se valem de intensidade, frequência, volume e duração crescentes) eram monitoradas em grande parte pela Percepção Subjetiva do Esforço (PSE), uma avaliação psicofísica baseada em um questionário aplicado ao atleta até 30 minutos após o treino.

O problema dessa metodologia intuitiva de análise de desempenho esportivo é que — ainda que acompanhada de dispositivos de monitoramento cardíaco — mutações mais endógenas, como respostas inflamatórias decorrentes do estresse físico das repetições, bem como variações metabólicas, passam ao largo dessa avaliação, resultando invariavelmente em lesões.

Um educador físico moderno deve trabalhar com todas as dimensões da análise de performance, aplicando PSE, tecnologias de monitoramento de indicadores durante a atividade e, principalmente, estudos prévios genéticos, os quais devem nortear a aplicação de treinos individualizados.

Isso, porque existem muitas variáveis genéticas associadas à maior predisposição à lesões. Um Polimorfismo de Nucleotídeos Único (SNP), por exemplo, é uma variação genética que, quando presente no gene MMP3, faz o indivíduo se tornar mais propenso a lesões musculares (risco 2,5 maior).

Qual a importância do treinamento no desenvolvimento das potencialidades genéticas?

Como você viu, a discussão sobre talento genético ou criação por treinamento é anacrônica e pouco útil aos profissionais do esporte, considerando que o comportamento físico depende fortemente de interações entre processos genéticos e ambientais.

Ou seja, os inúmeros estudos sobre o tema são uníssonos em cravar que a resposta aos estímulos motores tem limite no patrimônio genético de cada indivíduo. Explicando, a herança genética fixa limites em que as habilidades serão expressas, tanto pela definição das fronteiras no processo de maturação neuromuscular quanto pela contribuição dos fatores hereditários na capacidade de resposta psicológica diante do esforço, predisposição à motivação, otimismo e resiliência.

Ocorre que o exercício físico provoca uma grande adaptação neural e, como você leu acima, até a densidade óssea pode ser modificada pela atividade física.

A questão é que esse processo de evolução é específico, o que exige a criação de treinamentos individuais, guiados por mapeamentos genéticos e elaborados por profissionais de alta qualidade. Obviamente, nenhum professor de educação física é obrigado, com isso, a comprar sequenciadores de DNA.

O que deve ser feito são parcerias com centros de medicina para encomendar esses estudos de cada um de seus atletas para, só após, com os dados em mãos (e suas devidas interpretações médicas), elaborar um plano de treino regenerativo ou de condicionamento.

Vale lembrar que, ainda que não tenham força para mudar o código genético subjacente ao músculo humano, os exercícios físicos são capazes de alterar quimicamente e estruturalmente o DNA das células desses tecidos, e é isso que resulta em mais força, resistência e explosão muscular.

Com o passar da idade, o envelhecimento dessas células e a incapacidade aeróbica dos atletas em reproduzir as mesmas cargas de treinos exaustivos impedem a formatação muscular no mesmo nível de anos passados. Isso explica porque atletas, outrora mágicos, como Ulsan Bolt, não conseguem mais repetir o mesmo desempenho esportivo de seus anos gloriosos.

A lição que se tira disso é que talento se “fabrica” pelo produto da “generosidade genética” com a manipulação de variáveis externas, que serão moldadas de acordo com o mapa celular de cada indivíduo. Essa bússola indicará o desenho ideal para:

  • programas de nutrição individualizados;
  • acompanhamento psicológico para fortalecimento mental e motivação;
  • fixação de metas alinhadas aos limites genéticos de cada atleta;
  • treinamento ideal para cada configuração genética.

Nem é preciso dizer que a correta dosagem de todos esses itens depende também da qualidade do profissional de educação física envolvido no processo de evolução do indivíduo. E isso exige aprimoramento constante por meio de cursos esportivos de atualização e capacitação.

Gostou desse conteúdo? Há muito mais disponível a você neste blog: que tal aprofundar ainda mais seu know-how em desempenho esportivo, conhecendo agora modelos de treinamento específicos para cada modalidade? Sucesso e até a próxima página!

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